Os Graus da Ordem dos Ellu-Cohen

 Os Graus do Sistema de Reintegração dos Ellu-Cohen

A Ordem dos Elus Cohen, fundada por Martinez de Pasqually, não era uma simples estrutura maçônica: tratava-se de um sistema esotérico cristão-emanacionista cujo objetivo maior era a reintegração do homem à sua condição original e divina, corrompida pela queda primordial, a Encarnação da Alma Universal. Esse processo de Reconciliação e Reintegração era conduzido por graus iniciáticos que mesclavam simbolismo maçônico com doutrina teúrgica e práticas místicas altamente especializadas.

Segundo esta Doutrina, o Iniciado deveria ser conduzido a experimentar simbolicamente a subida de retorno à Unidade, seu estado Original, mas para fazê-lo deveria aprender o Caminho da Involução, da Queda, e a partir disto, trilhar a Senda da Evolução, de baixo para cima.

De forma dramática, os rituais foram criados para imprimir na Alma do Iniciado a história do Universo e dos Seres. Ele se tornaria uma Testemunha de todo o Drama Cósmico. Ao mesmo tempo, as práticas solitárias complementavam as cerimônias ritualisticas, a fim de que cada um pudesse criar em si mesmo as condições necessárias para se tornar um receptáculo divino, e atrair para si o interesse dos seres espirituais através da sua purificação, sacrifício e Vontade coordenada. A Intenção de reconstruir a Si Mesmo como um Novo Templo para a habitação divina, era criada e desenvolvida uma manjedoura no âmago do iniciado afim de que o Filho de Deus nascesse dentro do Eleito. As práticas cada vez mais intensas faziam que a Imitação de Cristo fosse vivida em todas as suas fases dolorosas e poderes. No Iniciado deveria nascer a Coisa, da mesma forma que o Espírito Santo descia após o batismo no Jordão, e foi transmitido aos apóstolos batizados.

Martinez era um destes Discípulos Eleitos que se apegou a Profecia de que os verdadeiros Apóstolos poderiam realizar coisas maiores do que o Messias, o Ungido, havia feito. Ele realizou proezas, milagres, mas não através de Magia e Teurgia, tudo se realizava através da Coisa, e ela agia através dele, pois ele realizava Seu Culto Primitivo. Portanto, no seio da Maçonaria, Pasqually escolheu desenvolver este sistema para mostrar aos Ellu-Cohen que eles também poderiam se tornar Receptáculos e Agentes dos Poderes Celestiais, ou Potências Celestes.

Em seu sistema, vemos, portanto os seguintes Graus, segundo Robert Amberlaim:

Graus de Pórtico: A iniciação velada

Os três primeiros graus – Aprendiz-Cohen, Companheiro-Cohen e Mestre-Cohen – mantinham externamente as formas maçônicas tradicionais. No entanto, esses graus escondiam, por trás de sua aparência simbólica, elementos velados da doutrina secreta da Ordem. Por meio de enigmas, expressões cifradas e ambiguidades ritualísticas, o candidato era levado a entrever, ainda que em lampejos, os princípios da teurgia e da reintegração espiritual que só seriam revelados nos altos graus.

Esses graus preparatórios continham também o chamado grau de "vingança", comum em muitas tradições maçônicas do século XVIII. Tratava-se de um ritual dramatizado no qual o iniciado participava simbolicamente da punição de traidores e perjuradores. Segundo Ambelain, esses ritos não apenas serviam como alerta moral, mas como mecanismo energético e mágico para alimentar a egrégora da Ordem, ou seja, a força psíquica coletiva que a mantinha viva. O traidor, ao romper seus votos, ativava automaticamente essa força punitiva, segundo a crença da tradição.

Graus de Templo: ascese e combate espiritual

Os Graus de Templo marcavam a transição do simbolismo à prática espiritual operativa. O Grau de Grande Arquiteto introduzia o iniciado no ascetismo levítico, com jejuns e purificações inspiradas no Antigo Testamento. Seu objetivo era expulsar os poderes das trevas da aura terrestre, em rituais coordenados com as operações do Mestre Soberano da Ordem. Esse grau já se equiparava, em importância e exigência, ao grau superior de Réau-Croix.

O passo seguinte era o grau de Grande Eleito de Zorobabel, também chamado de Comandante do Oriente, um grau ambíguo e introspectivo. A lenda de Zorobabel era reinterpretada de forma esotérica, remetendo às tradições iniciáticas de Elêusis. Aqui, o iniciado interrompia temporariamente suas operações teúrgicas para meditar, resguardar-se, acumular energia e se preparar espiritualmente para a consagração final. Era uma fase de concentração psíquica, semelhante a uma “noite escura da alma”.

Grau Supremo – Réau+Croix: a consagração espiritual

A Classe Secreta, o grau de Réau+Croix, representava a culminância do percurso iniciático. Embora oficialmente fosse um único grau, há indícios de que ele se dividia em dois estágios: o Réau+Croix e o misterioso Grande Réau (G.R.), mencionado por Saint-Martin em cartas pessoais. Essa classe tinha por finalidade permitir ao iniciado entrar em comunhão direta com os mundos espirituais superiores, por meio de evocações de Alta Magia, guiadas por operações rigorosamente estruturadas.

Se o grau de Grande Arquiteto ensinava a repelir as forças demoníacas da Terra, o Réau+Croix treinava o iniciado a atrair as Potências Celestes, criando uma ponte entre o visível e o invisível. A manifestação dessas entidades – muitas vezes com sinais auditivos ou visuais – era utilizada para verificar o grau de reintegração espiritual do evocador.

É nesse grau que se relata o contato com “La Chose” – um ente espiritual de natureza ambígua, ora descrito como uma inteligência planetária, ora como Metatron Sarphanim. A manifestação de "La Chose" exigia condições mágicas específicas e provocava tal impacto que muitos discípulos cobriam os olhos durante os rituais.

Outra estrutura de graus: A tradição de Waite

Arthur Edward Waite, em seus estudos, propôs uma escala alternativa de onze graus, que ilustra com mais detalhes o conteúdo simbólico e espiritual de cada etapa. Esses graus reforçam a ideia de que a Ordem sustentava uma tradição secreta transmitida desde Adão até Cristo, passando por Noé, Melquisedeque, Moisés e Zorobabel – todos eles vistos como custódios da sabedoria divina.

5º Grau – Aprendiz Eleito Cohen: introdução à doutrina da emanação divina. Instrução deste grau divide o conhecimento sobre a existência do Grande Arquiteto do Universo e sobre o princípio da emanação espiritual do homem. É importante perceber que para os Eleitos, A Ordem é emanada do Criador e tem sido perpetuada até nossos dias por Adão, de Adão para Noé, de Noé para Melquizedeque, portanto a Abraão, Moisés, Salomão, Zorobabel e Cristo. O sentido desta transmissão dogmática é que sempre tem existido uma Tradição Secreta no mundo. A Alma da Ordem é a Coisa, a Le Chose, um Conceito que no futuro será retomado pelos Ocultistas modernos como Egrégora.

6º Grau – Companheiro Eleito Cohen: simboliza a queda e a transição da unidade ao mundo material. O Iniciado aprende a Queda do Homem. Ele é passado da perpendicular ao triângulo, ou da união do Primeiro Princípio ao da triplicidade das coisas existentes. O grau de Companheiro tipifica essa transição. Ao Candidato desfazer a Queda, na qual seu próprio espírito se acha submerso.

7º Grau – Mestre Eleito Cohen: inicia o trabalho nos círculos de expiação, ligados à alquimia espiritual. simbolcamente o Candidato passa do triângulo ao círculo. Trabalha nos Seis círculos de expiação, em correspondência com as seis concepções utilizadas pelo Grande Arquiteto na construção do Templo Universal. Adão foi colocado no centro da criação, os Seis Círculos, Seis Dias, Eras ou Ciclos, portanto para retornar ao Centro do qual saiu, ele deve trabalhar com estas Esferas e Seres. Se explica o simbolismo do Templo de Salomão. Estimula-se os membros deste Grau a Caridade, aos bons exemplos e a todos os deveres da Ordem, para a reintegração de seus princípios individuais, simbolizados no Mercúrio, o Enxofre e o Sal.

8º Grau – Grande Mestre Eleito Cohen: o iniciado abraça a causa de Cristo e combate o mal. O candidato entra no círculo da reconciliação. Estimula-o a abraçar a causa da luta contra o mal sobre a terra, que tenta destruir a Lei divina. Devem ser soldados do Reconciliador, membros da Milícia Celeste do Cristo. Se adverte o candidato a não ingressar em ordens secretas que pervertem os ensinamentos recebidos. Simbolicamente o candidato tem 33 anos.

9º Grau – Grande Arquiteto ou Cavaleiro do Oriente: Grau de luz, estudo dos quatro pontos cardeais, Os Seres atribuídos a estes Pontos, e estudo das Tábuas Enoquianas de John Dee. Simbolicamente o candidato tem 80 anos, assim como Santa Helena ao encontrar o Santo Sepulcro em Jerusalém. É um Grau de Luz e o Templo se abre com todas as luzes acesas. Existem quatro Guardiões, que representam aos quatro ângulos dos quatro pontos cardeais do céu.

Neste Grau de Grande Arquiteto ou Cavaleiro do Leste, começavam os rituais pessoais com Teurgia, os rituais com anjos, alguns salmos, invocações e evocações. Jejuns e prostrações diárias, para a construção do Chamado corpo de glória. Por mais de 150 dias o candidato se preparava com jejuns e orações diárias.

10º Grau – Grande Eleito de Zorobabel: grau da redenção, envolto em mistério. No Grau de Grande Eleito, o adepto começava a se aprofundar na numerologia, na gematria, no uso dos salmos específicos, trabalhava sobre os poderes das letras hebraicas, e eram transmitidos os princípios básicos dos Rituais mais complexos, como exorcismos, limpeza, purificação, etc..). Também se intensificavam alguns jejuns, orações específicas e prostrações. Deste Grau em diante era observada uma regra de Dieta para a vida toda.

No grau de Grande Eleito de Zorobabel ou Comandante do Oeste começava o que era chamado de culto. (Todo tipo de ritualística pra limpar a terra dos espíritos prevaricadores, com rituais de Sacrifício animal. Aqui começa uma busca pesada pela reitegração e a transformação do adepto em um Adão antes da queda. Os jejuns mais longos e sacrificantes em certos períodos do ano (equinócios e solstícios), mais de 20 rituais diferentes para ao final do Grau ter a autoridade de se tornar R+.

11º Grau – Cavaleiro Réau-Croix: Culminação mística e realização crística. O grau de Reaux Croix era quando o operador já começava a ter contato direto com o invisível através de manifestação de entidades, luzes, sons, manifestações físicas e a manifestação de Coisa - "La Chose" - para se aproximar do poder crístico ou seja, se tornar uno com o próprio Hely, o Grande Reparador. Se tornar um Profeta Iluminado, ou atingir o Casamento com a Rosa de Saron, o Cristo, Hely.

O Culto Primitivo dentro da Maçonaria

A Ordem dos Elus Cohen foi mais do que um sistema de altos graus maçônicos. Ela representou uma das mais elaboradas tentativas de se criar um Sacerdócio do Culto Primitivo de forma operativa, que unia simbolismo bíblico, práticas mágicas e doutrina de reintegração. Seus rituais buscavam, acima de tudo, restabelecer no homem o estado de glória primordial perdido, preparando-o para se reconectar com as potências celestes e com a divindade.

Mais do que um sistema simbólico e moral Maçônico, cada ritual exigia que o Templo e seus objetos fossem limpos atraves de rituais de exorcismo, purificação e consagração, de cada objeto. Letras hebraicas e ou nomes de seres angélicos e divinos são entoados e invocados nestes rituais.

A morte de Pasqually não apagou a influência da Ordem. Seus ensinamentos foram absorvidos e perpetuados pelos martinistas, Maçons Retificados, pelos Illuminatti de Avignon, Rito de Swedenborg na França, pela Ordem Maçônica dos Philaletes e por correntes ocultistas posteriores, consolidando a figura do Elu-Cohen como símbolo da busca espiritual pela luz perdida no seio do mundo caído. Portanto, algumas Lojas maçônicas em Paris e Lyon, mantiveram os registros dos Rituais Cohen, além das bibliotecas da França.

A Tradição também foi guardada dentro de algumas estruturas de 95 Graus do R.A.P.M.M. onde os amigos e discípulos de Éliphas Lévi mantiveram alguns documentos e alguns rituais. Na Inglaterra muitos documentos foram guardados junto a Maçonaria inglesa e depois foram encontrados por John Yarker, Artur Edward Waite, Edouard Blitz, Teder e Victor Blanchard e foram transmitidos a Papus em 1891. Na França, além da herança dos Graus guardados no Memphis-Misraim, novos documentos foram reencontramos por Robert Amberlaim e Robert Amadou que independente da Maçonaria Egípcia, recriaram a Ordem. Alguns fragmentos da Ordem permaneceram no Haiti com a OTOA, criando assim o Vodoun Gnóstico.

Leonardo Artaud A. Toledo

Bibliografia:

Tratado de Reintegração dos Seres, Robert Amadou, Editora Amorc. 2015.

Correspondências de Martinez de Pasqually a Louis-Claude de Saint-Martin, 12 de Agosto de 1771,1772 e 1773.

Catecismo dos Filósofos Desconhecidos, Jean-Marc Vivenza.

PECULIAR ELUS COHEN RITE REQUIRING. THE SACRIFICE OF A DEER!TRANSLATION & PREFATORY REMARKS BY RUSSELL R. YODER.

RITUAL DOS MAÇONS DO ELUS COHEN DO UNIVERSO - Luiz Franklin de Mattos Silva, Antônio Alberto de Pina Júnior, Eduardo Cezar Cândido Xavier Ferreira. Revista Fraternitas in Praxis. 2014.

BAADER, F. Von. Os ensinamentos secretos de Martinez de Pasqually. Paris: Bibliothec Charcornac.

GALTIER, G. Maçonnerie Egyptienne Rose-Crioix et Neo Chevalerie. Paris: Editions du Rocher, 1989.

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