Jean Chaboseau - O Martinismo Místico e a criação da Tradicional Ordem Martinista

 

Pierre Louis Jean Chaboseau: o Martinista místico do século XX

Pierre Louis Jean Chaboseau nasceu em 13 de dezembro de 1903, em Paris, no arrondissement da capital francesa. Filho de Augustin Chaboseau — um dos cofundadores do Martinismo moderno ao lado de Papus — Jean cresceu em um ambiente profundamente marcado por ideias esotéricas, socialistas e espiritualistas.

Desde jovem, Jean Chaboseau demonstrou interesse pelas artes. Estudou pintura e estabeleceu-se como artista plástico na Rue Montmartre, 13, onde teve relativo sucesso. Casou-se com Madeleine Rebin, com quem teve dois filhos. Algumas de suas obras ainda circulam em coleções particulares e são ocasionalmente vendidas no mercado de arte.

O despertar iniciático

Foto Original de Jean Chaboseau 
Em 1929, aos 26 anos, foi iniciado na Ordem Martinista por seu próprio pai, Augustin. Pouco depois, tornou-se um dos membros fundadores e secretário do grupo Athanor, em Paris. Em 1930, aproximou-se da Fraternidade dos Polares, liderada por Victor Blanchard, e ingressou também na Sociedade Teosófica da capital francesa.

Seu caminho iniciático se ampliou com sua entrada na Maçonaria: foi iniciado como Aprendiz em 1932, na loja "Les Amitiés Internationales" da Grande Loge de France; tornou-se Companheiro em 1935 e foi exaltado Mestre Maçom em 1936.

Jean partilhava com o pai o fascínio pelas tradições orientais, especialmente o budismo, e buscava integrar essas influências em sua visão do Martinismo.

O projeto de uma nova Ordem Martinista

Influenciado pelo ideal do individualismo místico de Louis-Claude de Saint-Martin e pelas discussões iniciadas por Platon Sémelas — que via os Superiores Incógnitos como uma forma espiritual ou "Igreja Interior", comparável a Santos ou Mahatmas — Jean começou a articular a criação de uma nova estrutura martinista. Para ele, a Ordem deveria retornar à sua essência mística, desvinculada das estruturas ritualísticas fixas criadas após 1897, pois assim ele idealizava o início da Ordem Martinista, sem ter experimentado a ebulição da Ordem Martinista em meio a Hermetic Brotherhood of Luxor, Philalethes, Magnetistas, e espíritas da Belle Époque. 

Em 1931, Jean propôs a reunião dos remanescentes do Conselho Supremo de 1891 para reformular o Martinismo. Com apoio de Georges Lagrèze, Victor-Émile Michelet e seu pai Augustin Chaboseau, e em contato com Philippe Encausse, filho de Papus, propôs a criação de uma nova ordem — não baseada nos rituais padronizados de 1897, mas nos rituais esotéricos desenvolvidos por Platon Sémelas a pedido de Papus antes de sua morte.

A Ordem Martinista e Sinárquica estava praticamente abandonada, e Victor Blanchard estava focado na Ordem dos Polares, e como um líder de uma seita, apresentava a si mesmo como líder de toda a Rosacruz do mundo, quase o próprio Elias Artista, pretensão que marcou as lideranças posteriores da Ordem (esta ordem permaneceu como um boato, quase uma seita secreta sem ultrapassar o número de 500 membros desde então). 


Pantáculo da Ordre Martiniste Traditionel

Assim, em 1931, nasceu a Ordem Martinista Tradicional (Ordre Martiniste et Traditionel – OMT) sse afastando da Ordem Martinista e Sinárquica de Victor Blanchard. No entanto, o Dr. Philippe Encausse se retiraria do projeto já em 1932.


A Ordem Martinista Tradicional terá o enfoque mais Místico de Augustin Chaboseau, com uma terminologia mais aberta aos conceitos da Sociedade Teosófica e Budismo (herança de Jean), uma estrutura iniciática (Herança de Lagréze) e muitos estudos sobre o Sufismo (por herança de Victor-Émile Michelet, amigo de Inayat Khan, e membro da Ordem Sufi). 

Liderança e expansão espiritual

Jean também foi ordenado Bispo da Igreja Gnóstica da França com o nome de TAU HIERAX, sucedendo Chamuel (Tau Bardesane) em 1937. Chamuel sabiamente deixou a direção da Ordem Kabalística da Rosa-Cruz com Victor Blanchard e a Igreja com Jean Chaboseau, prevendo, talvez, os rumos que ambas as Ordens tomariam e as devidas vocações. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, Jean atuou como vice-presidente da OMT, ao lado de seu pai, Michelet, Lagrèze e Madame Jeanne Guesdon. Apesar das dificuldades do período, a ordem manteve-se ativa com pouquíssimos membros, sem reuniões, de forma discreta.

Em junho de 1945, Augustin Chaboseau convocou uma reunião para discutir o futuro da OMT. Parte dos membros rejeitou a ideia de uma estrutura obediencial. Georges Lagrèze defendeu a necessidade de uma organização formal, nos moldes da Maçonaria, e a OMT foi restabelecida como uma Obediência Martinista Francesa. Os que não concordaram — como Robert Amadou, Paul Laugénie e Édouard Gesta — recriaram a associação "Amigos de Saint-Martin", marco do nascimento do chamado Saint-Martinismo moderno, e as bases da Ordem Martinista dos Cavaleiros de Cristo através de uma Linhagem do Martinismo russo. 

Ainda em 1946, Jean publicou seu principal livro: O Tarô – Ensaio de interpretação segundo os princípios do hermetismo, onde desenvolveu uma leitura mística do baralho à luz do hermetismo e das tradições orientais. No mesmo ano, após a morte de seu pai e de Georges Lagrèze, Jean foi nomeado Grão-Mestre da OMT, mas renunciou em setembro de 1947, afirmando que por respeito ao individualismo de Saint-Martin, não desejava seguir adiante com estruturas de obediência. Essa decisão foi comunicada pessoalmente a Philippe Encausse. Diz Jean: 

“Sinceramente desejo, em razão desta circunstância, que o Martinismo volte a ser o que sempre devia ter sido: uma simples associação de espíritos unidos pelas mesmas aspirações espirituais e guiados pelas mesmas investigações, sob a luz do Cristo... fora de toda e qualquer preocupação de Ordem ou Obediência.”

Os membros diretores da FUDOSI (Federação das Ordens e Sociedades Iniciáticas) não aceitaram a dissolução da Ordem Martinista Tradicional, em convenção, elegeram Ralph Maxwell Lewis (AMORC) como sucessor, então Delegado da OMT nos Estados Unidos. 

Retorno às origens

Entre 1951 e 1953, Jean retornou à cena martinista ao lado de Philippe Encausse, que então liderava uma nova vertente inspirada que se intitulava a Ordem Martinista de Papus. Muitos membros do antigo Conselho aderiram à este projeto de criação da Ordem Martinista de Paris, que afirmava se distanciar da política, e das seitas, mas novamente desconhecia o início da Ordem Martinista ligada a projetos do romantismo nacionalista da Belle Epoque, além de não assumir a ligação de Papus com o movimento Espírita. 

Paralelamente, Jean dedicava-se à pesquisa esotérica e publicação de obras. Em 1948, publicou La voyance, comment la développer (Clarividência: como desenvolvê-la). Em 1951, lançou Pensamento: poder desconhecido, sua cultura, seu domínio.

Entre 1949 e 1950, dirigiu a revista teosófica Le Lotus Bleu, mostrando sua contínua ligação com a Sociedade Teosófica. Ainda recebeu consagração episcopal pelas mãos de Henri Meslin de Campigny (Harmonius) em outras linhagens da Igreja Gnóstica. 

Legado e morte

Pierre Louis Jean Chaboseau faleceu em 14 de abril de 1978, deixando um legado marcante no esoterismo francês do século XX. Sua vida foi dedicada à busca do sentido espiritual da iniciação, à reconciliação entre Oriente e Ocidente e à defesa de um Martinismo livre de estruturas rígidas.

Jean Chaboseau foi um Grande Iniciado no sentido de Síntese entre o Martinismo e a Sociedade Teosófica, um grande místico, cujas obras de Tarot associando conceitos do Budismo trazem a marca de um Grande Alma Mística negligenciada na história da Ordem Martinista de forma proposital.

Como escreveu em sua obra sobre o Tarô:

"O Hermetismo permite ao Adepto alcançar a percepção do Não-Manifesto, e só resta atravessar o estágio final, que nenhum hieróglifo poderia representar — um estágio que é a Libertação total, o próprio estado incondicionado, para o qual nenhum modo de manifestação verbal é adequado, na medida em que é a própria Identidade suprema." - Jean Chaboseau 

 "(...) se refletirmos sobre o conhecimento hermético, estaremos autorizados a interpretar a relação entre o simbolismo dos Arcanos Menores e os quatro elementos de forma diferente. Na linguagem hermética, a emanação do Ain Soph, o Arquétipo, a origem dos outros três elementos é o Fogo. Deste elemento primordial são engendrados os estados gasosos, o elemento ar, de onde emana toda a substância líquida, mas também todo o movimento, de acordo com a assimilação da água às águas fusíveis de Platão. Finalmente, surge a expressão genérica de toda a matéria sólida, a terra." -  Jean Chaboseau 


Leo Artaud Toledo 

 

Comentários

  1. Saudações a todos os irmãos Martinistas e Martinezistas, a todos que se encontram neste processo de regeneração, reintegração. Como sempre nosso querido e amado irmão Léo nos brindando com seus estudos e abrindo possibilidades de estudos e pesquisas a todos nós.

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