Victor Blanchard - Biografia Martinista - Ordem Martinista e Sinárquica



Victor Blanchard: o Martinista Esquecido e a Sinarquia

Imperator da FUDOSI e Fundador da Ordem Martinista e Sinárquica 0M&S

Victor Alfred Blanchard nasceu em 10 de julho de 1877, em Versalhes. Sua trajetória poderia ter sido apenas a de um respeitável alto funcionário da administração pública francesa, mas ele escolheu também os caminhos da iniciação esotérica e da revolução espiritual.

Homem de confiança nas esferas da República, foi Secretário-Relator da Câmara dos Deputados, Chefe da Secretaria-Geral da Assembleia Nacional, e atuou no Serviço de Arquivos. Também presidiu a Associação dos Servidores Públicos. Em 1940, antecipou sua aposentadoria para não servir ao regime de Vichy — uma decisão que revelava certa integridade diante da ameaça colaboracionista.

Mas sua vida pública era apenas a superfície. Desde muito jovem, Blanchard se apaixonou pelo ocultismo, tornando-se uma figura central, embora hoje quase esquecida, nas ordens iniciáticas francesas do século XX.


Primeiros passos na senda iniciática (1900–1912)

Blanchard começou sua jornada esotérica aos 20 anos, ao ingressar na Ordem Martinista de Papus, no seio da Escola Superior Livre de Ciências Herméticas. A partir daí, foi presença constante nas redes ocultistas de Paris.

Em 1906, com a fundação da loja Humanidad do Rito Antigo e Primitivo de Memphis-Misraïm, ele foi Iniciado, Elevado e Exaltado e logo se tornou Secretário da Loja. Dois anos depois, em 1908, já era detentor dos graus 30º e 90º e atuava como braço direito de Papus, colaborando com Charles Detrè (Téder) na organização do Congresso Espiritualista e Congresso Maçônico. 

Entre suas diversas afiliações, destacam-se:

  • Membro da Ordem do Templo Renovado (René Guénon) — da qual se afastou em 1909, a pedido de Papus.

  • Iniciado na Ordem Cabalística da Rosa-Cruz (OKRC), onde obteve os títulos de Bacharel, Licenciado e Doutor em Cabala.

  • Fundador da loja Melquisedeque, que se tornou uma Grande Loja em 1912 (A Grande Loja conferia Sete graus nesta época — mas teve vida curta. 


As consagrações e o episcopado gnóstico (1914–1919)

Em 1914, Blanchard foi consagrado bispo por Papus, no seio da Igreja Gnóstica de Jules Doinel

Após a morte de Papus, em 1916, Téder o incumbiu de novas responsabilidades na Ordem Martinista. No ano seguinte, foi novamente consagrado bispo, agora por Jean Bricaud, recebendo o nome iniciático de Tau Targelius.

Durante esse período, sua atuação foi intensa:

Ordem do Lírio e da Águia

  • Renunciou à OKRC, quando esta passou ao controle de Bricaud. Criaram-se dois ramos da OKR+C. 

  • Juntou-se à Ordem do Lírio e da Águia.

  • Em 1919, como Alto Dignitário Martinista, assinou um tratado de aliança entre a Ordem Martinista e a Ordem do Lírio e da Águia.


A fundação da OM&S e a utopia sinárquica (1920–1932)

Em 1920, em ruptura com a direção da Ordem Martinista de Lyon que restringia a homens Maçons que tivessem atingido o Grau 18º do R.A.P. de Memphis Misraim, Blanchard fundou a Ordem Martinista e Sinárquica (OM&S), inspirada tanto no legado de Papus quanto nas ideias de Saint-Yves d'Alveydre. Seu objetivo era conjugar tradição iniciática com os ideais sinárquicos de uma ordem social harmoniosa.

Porém, a OM&S teve existência breve e irregular, sempre com dificuldades para reunir discípulos e manter coesão interna, algo que aparentemente é uma marca desta Egrégora. 


O auge com a FUDOSI (1933–1939)

Convenção da FUDOSI 
O ano de 1933 marcou o auge da influência de Blanchard: ele assumiu a presidência do grupo de Paris da Irmandade Polar. No ano seguinte, buscando legitimar suas Ordens e iniciativas em oposição às de Jean Bricaud, Blanchard aliou-se a Émile Dantinne. Ambos reconheceram os títulos de Harvey Spencer Lewis, líder da AMORC, nas linhagens da Ordo Templi Orientis e do Rito de Memphis-Misraim transmitidas por Theodor Reuss. 

Como resultado dessa aliança, Blanchard tornou-se um dos três fundadores da FUDOSI (Federação Universal de Ordens e Sociedades Iniciáticas), estabelecendo, juntamente com Dantinne e Lewis, o Conselho de Três Imperatores que governaria a federação. Para se opor ao crescimento da Thelema de Aleister Crowley, eles decidiram retirar os ensinamentos sobre a sublimação das energias através da Transmutação da energia dos chakras sexuais - o chamado "Tantra" pelos ocidentais - e evitarem referência a estes ensinamentos, o que geraria uma nova guerra: FUDOSI X FUDOFSI. Criam-se cisões na Igreja Gnóstica, no Memphis Misraim, na Ordem Martinista e na OKRC. 
Blanchard centralizava para si muitas Ordens, sem conseguir administrar todas. Na Convenção da Fudosi ele era representante da Ordem Martinista & Sinárquica, a Irmandade Polaires e representante de Lucien Mauchel (Chamuel) para a Ordem Kabalística da Rosacruz. 

Blanchard recebeu então altas dignidades iniciáticas:

  • Arconte das Ciências e Artes na Ordem Hermetista Tetramegista e Mistica Pitagórica de Émile Dantinne.

  • Sar Hieronymus na Ordem Rosacruz Universitária de Émile Dantinne.

  • Ordo Aureae & Rosae Crucis – OARC 

No entanto, 1939 foi o início de sua queda. Em um gesto interpretado como arrogância, Blanchard se autoproclamou Grão-Mestre Universal da Rosa-Cruz, após receber uma "mensagem do Oráculo de Agartha". Isso causou sua expulsão da FUDOSI. A OMS sofreu com o golpe: diversos membros, como Georges Lagrèze, Harvey Spencer Lewis, Ralph Maxwell Lewis e Jeanne Guesdon, migraram para a Ordem Martinista Tradicional (OMT). Augustin Chaboseau tomou seu lugar como Imperador da FUDOSI. 


Guerra, repressão e silêncio (1940–1945)


Em 1940, Blanchard aposentou-se do funcionalismo público. Durante a Segunda Guerra Mundial, procurou manter-se discreto, mas acabou envolvido em um episódio controverso.

Em 1944, sua casa foi vasculhada pela polícia de sociedades secretas. Foram apreendidos livros, insígnias e documentos pessoais — mas não se encontrou nenhum indício de conspiração política ou colaboracionismo ativo. Contudo, ele entregou uma nota manuscrita de 15 páginas com informações sobre organizações ocultistas e membros antigos, o que comprometeu sua reputação. Muitos o acusaram de trair os próprios companheiros; outros sugerem que tentou proteger amigos omitindo detalhes comprometedores.


Últimos anos e discreta redenção
o (1945–1953)

Mesmo com sua imagem abalada, Blanchard aparentemente manteve atividade iniciática. Em 1945, consagrou Robert Amadou (Tau Jacques) como bispo na Igreja Gnóstica Universal. No ano seguinte, voltou a representar a OM&S no 5º Convento da FUDOSI, sendo reintegrado — mas sem recuperar sua posição de Imperator.

Presidiu a OMS até o fim de sua vida, mesmo com influência cada vez menor. Com a dissolução da FUDOSI em 1951, perdeu a última chance de retomar protagonismo internacional.

Victor Blanchard faleceu em 14 de março de 1953, em sua residência na avenida de Breteuil, nº 60, em Paris. Partiu envolto em sombras, mas deixando um legado peculiar: o de um homem que tentou unificar tradições ocultistas e ideias políticas espiritualizadas, entre erros e ousadias, no palco dramático do esoterismo francês moderno. 


Leo Artaud Toledo 




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