O QUE É O MARTINISMO?
Para lançar luz sobre esse tema, que apenas aparenta ser simples, analisemos três definições amplamente acessíveis em português e inglês:
"O Martinismo é uma forma de misticismo cristão e cristianismo esotérico, preocupado com a queda do primeiro homem, seu estado materialista de ser, privado de sua própria fonte divina, e o processo de seu eventual (se não inevitável) retorno, chamado de 'Reintegração'." — Enciclopédia Britânica (2025).
"O Martinismo é uma corrente iniciática de misticismo judaico-cristão, baseada nos ensinamentos de Louis-Claude de Saint-Martin e Martinez de Pasqually, com forte influência do cristianismo esotérico e da mística judaica. Sua filosofia centra-se na ideia de que o ser humano, por meio do mau uso do livre-arbítrio, afastou-se de Deus, buscando, através de um processo de ‘Reintegração’, recuperar sua plenitude divina." — Wikipedia (em inglês), consultada em maio de 2025.
Embora essas definições ofereçam uma base, estão longe de abranger toda a complexidade e profundidade do Martinismo. Para avançarmos, é necessário compreender o que se entende por misticismo cristão.
Misticismo Cristão
O misticismo cristão é a tradição de práticas e teologias místicas no seio do cristianismo. Ele se ocupa da preparação da alma, da consciência e dos efeitos de uma presença direta e transformadora de Deus ou do amor divino.
A doutrina proposta por Martinez de Pasqually, Louis-Claude de Saint-Martin, Jean-Baptiste Willermoz e, por herança espiritual, Jacob Boehme, transcende o misticismo tradicional de figuras como Santo Agostinho de Hipona, São Tomás de Aquino, Tomás de Kempis e Santa Teresa d'Ávila. Em vez de se limitar à contemplação teológica ou à ascese, essa tradição se aventura em um culto chamado de Primitivo, dotado de uma cosmogonia própria, aritmosofia, rituais, paramentos e revelações graduais. A iniciação martinista leva o adepto a vivenciar, por meio do drama ritualístico e de práticas invocatórias e evocativas, seus aspectos interiores, sua Personalidade e um encontro com sua própria Consciência.
A definição de Ricardo Uchôa oferece uma compreensão mais ampla:
"O Martinismo é uma corrente iniciática e escola de pensamento místico-filosófico, derivada dos ensinamentos e escritos de Martinez de Pasqually e de Louis Claude de Saint-Martin, relacionada ao cristianismo esotérico e à mística judaica. Também se associa a um rito maçônico — o Rito Escocês Retificado (RER) — já que seu criador, Jean-Baptiste de Willermoz, foi discípulo de Pasqually e amigo de Saint-Martin."
Ainda assim, por mais completa que essa definição seja, ela não aborda como elementos como o Tarot, a Cabala Luriânica, a Alquimia e outros ensinamentos foram integrados ao corpus martinista, culminando na obra de Éliphas Lévi e Papus.
Portanto, antes de propormos uma ampliação à definição do Irmão Ricardo Uchôa, e na tentativa de compreender e definir o Martinismo — sem reduzi-lo a uma única formulação —, é necessário, preliminarmente, identificar o que não é o Martinismo.
1. O Martinismo é a Doutrina de Martinez de Pasqually?
Não.A Doutrina do Tratado da Reintegração dos Seres, bem como as práticas, catecismos e rituais dos Ellus-Cohen, não constituem, e não abrangem em sua totalidade a Corremte chamada de Martinismo. Embora essas ideias também permeiem outras tradições e Ritos da mesma época, o Martinismo como o conhecemos está mais relacionado a um outro momento da vida de Louis-Claude de Saint-Martin e com a Ordem dos Martinistas de Papus.
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| Paramentos do Rito Escocês Retificado |
Não.
Embora o Rito Escocês Retificado contemple os ensinamentos da Doutrina da Reintegração dos Seres, ele é uma tradição única dentro da Maçonaria, e suas influências vão além de Willermoz, Salzmann, etc. A doutrina do RER não contempla os elementos de Cabala, Gnosticismo e Teurgia como recebemos de Papus e da Ordem dos Martinistas. Ela é um aspecto do MARTINISMO, mas não é por completo O Martinismo.
3. O Rito dos Philaletes é Martinismo?
Não.
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| Savalete de Langes, criador do Rito dos Philalethes |
O Rito dos Philaletes não só preservou os rituais dos Ellus-Cohen e de Louis-Claude de Saint-Martin, mas também integrou diversas outras influências, tanto divergentes quanto convergentes. Por isso, não podemos afirmar que ele seja exatamente o "Martinismo" como é tradicionalmente compreendido, mas se aproxima muito, como veremos abaixo.
Embora sua importância seja menosprezada, esta Ordem serve como um elo entre os Martinistas Ellu-Coen do século XVIII e a concepção do Martinismo desenvolvida por Éliphas Lévi Zahed, que incorpora elementos como CABALA, TAROT, ALQUIMIA e ASTROLOGIA.
ANTOINE COURT DE GEBELIN |
Dentro dos membros dos Philalethes, dois personagens principais cujas obras influenciam diretamente nossa compreensão do Martinismo, tal como interpretado por Éliphas Lévi, Papus e a Ordem Martinista, são Antoine Court de Gebelin e Eteilla (Jean-Baptiste Alliette), cujos escritos sobre o Tarot e sua relação com o Alfabeto Hebraico desempenham papel importante para a formação do que será compreendido como Ordem dos Martinistas.
4. Os ensinamentos de Louis-Claude de Saint-Martin são O Martinismo?
Não. O Teósofo Saint-Martin estabelece bases da síntese entre Pasqually e Jacob Boehme, e soma outros elementos a sua doutrina.
É importante aqui fazer uma comparação: assim como os ensinamentos de Jesus não limitam o Cristianismo, mas estabelecem suas bases, os ensinamentos de Louis-Claude de Saint-Martin são profundos e abrangem uma série de temas que marcaram diferentes fases de sua vida, como o Mesmerismo, o sonambulismo, a Aritmosofia, e a síntese das doutrinas de Pasqually e Jacob Boehme. Além disso, ele se aprofundou em temas como as tradições chinesas, alquimia, Cristianismo Primitivo, e filosofia, interagindo com mestres como Karl Von Eckarthausen e os discípulos de Swedenborg. Embora esses ensinamentos tenham enriquecido sua obra, não são propriamente O Martinismo, mas sim o Saint-Martinismo, conforme proposto por Robert Amadou.
4. O Martinismo Russo é O Martinismo?
Não.
Os iniciados russos, como Galitzin, estavam em contato com diversos Ritos além da Doutrina de Pasqually e dos ensinamentos de Saint-Martin. Isso gerou uma ampliação dos ensinamentos, práticas, doutrinas e rituais, incorporando influências e heranças anteriores ao que entendemos hoje como Martinismo, criando algo único, mas que não contempla todo o Martinismo.
O Martinismo como recebemos atualmente nas Ordens Martinistas foi organizado por Papus e pelo supremo conselho em 1891, seus Graus e cadernos foram organizados em torno de 1897 e continuaram a evoluir após a Grande Iniciação de Papus em 1916.
Entre as várias interpretações dos Mestres do Passado, como Martinez de Pasqually, Jacob Boehme, Louis-Claude de Saint-Martin e Jean-Baptiste Willermoz, o Martinismo chegou aos dias de hoje com múltiplos graus de aprofundamento. Isso se reflete em sua técnica como escola de Pensamento, formação iniciática e esotérica, sendo necessário entender O Martinismo como ele se apresenta no contexto atual, após as contribuições de Éliphas Lévi, Zahed e Papus.
O que é o Martinismo?
O Martinismo está em cada uma destas correntes e grupos citados, embora nenhum deles possa ser o detentor absoluto de um Martinismo coeso e fechado.
A base cosmológica do Martinismo é a Doutrina da Reintegração dos Seres, uma Doutrina emanacionista com nuances de gnosticismo cristão e Neoplatonismo, esta Doutrina estava incompleta, mas que foi reunida por Louis-Claude de Saint-Martin, que adicionou os ensinamentos de Jacob Boehme (Amigos de Deus) e Gichtel (Irmãos Angélicos).
Após a morte de Pasqually, como a Doutrina estava incompleta e eles aguardavam a Manifestação prometida pelo Agente Incógnito, essa doutrina foi enriquecida com ensinamentos deste Ser Espiritual, quando finalmente houve a manifestação da "Agente Incógnito", (A Virgem Maria). Estes ensinamentos foram coletados por Saint-Martin, alguns foram queimados, mas acabaram sendo transmitidos aos Ellus-Cohen e sistematizados por Jean-Baptiste Willermoz e Louis-Claude de Saint-Martin na Sociedade dos Íntimos.
Essa ordem e seus ensinamentos foram influenciados por pensadores como Éliphas Lévi Zahed, Henri Delaage, Saint-Yves d'Alveydre, Peter Davidson, Fabre d'Ollivet, Joséphin Péladan, Anna Kingsford, Helena Petrovna Blavatsky, Maria Sinclair Lady Caithness entre outros mestres e irmãos encarnados e espirituais, portanto:
"O Martinismo contemporâneo é uma corrente iniciática e uma Escola de Pensamento que tem por base a Doutrina de Martinez de Pasqually ( * ) que foi complementada pelo Agente Incógnito, (Uma Entidade Espiritual) e por Louis-Claude de Saint-Martin. Estes ensinamentos foram organizados por Jean-Baptiste Willermoz e Louis-Claude de Saint-Martin na Sociedade dos Íntimos, e foram guardados pelos Philalethes, depois foram reinterpretados por seus Iniciados, que adicionaram novos ensinamentos sobre o Tarot e a Cabala e continuaram desenvolvendo a corrente sob novos olhares, adicionando elementos como A Reencarnação" . Parte destas herança chegará a Organização Papusiana. Papus buscava organizar uma Loja de Teosofia Ocidental e foi um dos fundadores da Loja Hermes da Sociedade Teosófica de Adyar. Este projeto de Papus, em vez de uma Ordem Hermética ou Ordem Teosófica, foi chamado de Ordem dos Superiores Incógnitos, Filósofos Desconhecidos, em homenagem aos Alquimistas Rosacruzes do Século XVII, e após ser vulgarmente chamada de Ordem Martinista, ele usou o termo, homenageando a Martinez de Paqually e Louis-Claude de Saint-Martin - citados por Éliphas Lévi.
Tome nota: É importante notar que a iniciação na Ordem dos Superiores Incógnitos de Papus já era transmitida desde 1884, e que havia outros herdeiros dessa tradição, além de Papus e Augustin Chaboseau.
O Martinismo contemporâneo - A Ordem dos Martinistas, uma Escola Iniciática de Teosofia Cristã, Hermetismo e Rosacrucianismo clássico
Papus e os membros do Conselho da Ordem Kabalística da Rosa-Cruz interagiram com diversas tradições, pesquisas, sociedades e rituais, alimentando uma explosão do misticismo, ocultismo, magnetismo, ciências metafísicas, gnosticismo e esoterismo. Eles estabeleceram as bases para muitas das escolas de artes ocultas ou de misticismo filosófico que conhecemos hoje.
Esses estudiosos beberam da inspiração de Helena Blavatsky, Allan Kaedec, Eliphas Lévi e Louis-Claude de Saint-Martin, e também das correntes do Iluminismo, Humanismo, Renascença, Cabala Judaico-Cristã, Hermetismo, tradições dos Vedas e Iogues, mantras tibetanos e os Mistérios do I Ching.
Estudaram as antigas iniciações egípcias, gregas, persas e babilônicas, além de se aprofundarem na alquimia árabe e nos mistérios dos boêmios (ciganos). Reavivaram os grimórios mágicos dos Papas e de São Cipriano.
Essa "panspermia" de conhecimentos tocou cada iniciado de uma forma única. Assim como os ensinamentos de Cristo geraram centenas de perspectivas e grupos (e hoje existem inúmeras interpretações da Cristandade), e os ensinamentos de Sidarta Gautama geraram várias formas de Budismo, o Martinismo gerou diversos grupos iniciais e continua a gerar novos grupos autônomos e autocéfalos de Cavaleiros do Cristo.
É importante lembrar que o Dr. Gérard Encausse (Papus) esteve sempre em constante evolução em suas pesquisas. Junto a Sedir, Charles Barlet e Marc Haven, Papus foi mudando suas tendências, e, finalmente, após seu encontro com Nizier Anthelme Philippe, o Taumaturgo de Lyon, sua vida e motivação foram ressignificados. Isso gerará novas interpretações sobre o Martinismo e suas ordens.
O Martinismo após Papus evoluiu através dos diversos Iniciados, como Teder, Jean Bricaud, Victor Blanchard, Robert Amberlaim, Robert Amadou, Philipe Encausse, Raymond Bérnard, Rémi Boyer, Francisco Waldomiro Lorenz, Sevananda Swami (Jehel), e continua a evoluir como uma CORRENTE INICIÁTICA VIVA.
Leo Artaud Toledo
Theo Amathor
Notas:
1- Ricardo Uchôa, Martinismo, História e Tradição, 2018, Clube dos Autores.
2- McGinn, Bernard (2006), Os escritos essenciais do misticismo cristão , Nova York: Modern Library)
3- Andrew Louth, "Teologia da Filocalia " em Abba: A Tradição da Ortodoxia no Ocidente (St Vladimir's Seminary Press 2003







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