Dr. Fernand Rozier - Biografia do Martinista Alquimista Discípulo de Éliphas Lévi

 



Fernand Rozier: O Ocultista Cristão e Herdeiro da Alta Magia

Gilbert Louis Fernand Rozier, filho de um advogado e juiz de paz, nasceu em 1822 na pequena cidade de Ébreuil, no coração da França. Sua mãe, Louise, era filha de um médico — origem que talvez tenha influenciado sua inclinação precoce tanto pelas ciências quanto pelo invisível.

Desde a infância, Rozier declarava-se sensível ao sobrenatural. Afirmava manter comunhão com o mundo invisível e sentia-se protegido por Santa Filomena, figura que mais tarde se tornaria central em sua vida espiritual. Dotado de habilidades de clarividência, dizia ter experimentado visões e premonições ainda jovem.

Foi enviado a Paris para concluir seus estudos, onde obteve o bacharelado em Ciências e Letras, formou-se em Farmácia e depois em Medicina. Além disso, obteve também um doutorado em Ciências Físicas. Trabalhou por um período como secretário de Urbain Le Verrier, o renomado astrônomo responsável pela descoberta do planeta Netuno, no Observatório de Paris. Apesar do prestígio, decidiu buscar experiências mais intensas, tornando-se médico de bordo em um transatlântico — uma vida no mar que duraria sete anos, até seu retorno definitivo à capital francesa como médico.

Mas Fernand Rozier não era apenas um homem da ciência. Desde muito jovem, aos 17 anos, entrou em contato com Éliphas Lévi, o grande mestre da magia do século XIX, tornando-se um de seus discípulos mais próximos. Participou de experimentos alquímicos ao lado de Lévi, antes da famosa viagem do mago à Inglaterra em 1861 e da célebre invocação de Apolônio de Tiana, em companhia de Bulwer-Lytton. Há registros que sugerem que Lévi teria sido eleito Imperator da Fraternidade dos Irmãos Maiores da Rosa-Cruz em 1854, sucedendo o próprio Bulwer-Lytton, o que teria reforçado ainda mais o prestígio de Rozier entre os iniciados. 

Durante décadas, até meados dos anos 1870, Rozier permaneceu fiel ao ensinamento de Lévi. Com o renascimento ocultista dos anos 1880, passou a frequentar os círculos ligados à Madame Maria Sinclair, Lady Caithness,  à Sociedade Teosófica e aos grupos esotéricos franceses. Foi então que se aproximou de Papus (Gérard Encausse) e seus jovens colaboradores. Hospedou em sua casa os editores das revistas L’Initiation e Le Voile d’Isis, onde também instalou um pequeno laboratório para experiências ocultistas — que, segundo relatos, geraram resultados "muito curiosos".

Entre 1900 e 1910, contribuiu regularmente para revistas ocultistas como Rosa Alchemica, editada por Jollivet-Castellot, e publicou diversos textos sobre temas como:

  • Maldições e encantamentos

  • O plano astral

  • Espíritos elementais

  • Poderes invisíveis

  • Deuses, anjos, santos e egrégoras

  • Profecias e a grande inundação de Paris de 1910

Rozier chamava sua doutrina de ocultismo cristão, uma síntese ousada entre o esoterismo e a fé cristã:

“Sou cristão porque acredito plenamente no ensinamento cristão, e sou ocultista porque estudo seus mistérios ocultos. [...] Paganismo, Mazdaísmo, Hinduísmo contêm chaves preciosas. [...] O ocultismo que ensino é o ocultismo cristão.”Fernand Rozier

Essa visão conciliatória — entre religião revelada e tradição iniciática — marcou sua obra maior, o Curso de Alta Magia, um manuscrito de cerca de 200 páginas perdido durante a Segunda Guerra Mundial, apreendido pela Gestapo e redescoberto apenas décadas depois nos arquivos pessoais de Philippe Encausse, filho de Papus.

Neste curso, Rozier apresenta um sistema próprio de classificação dos planos da realidade, que inclui os níveis: Divino, Celestial, Mental, Kâmico (emocional), Astral e Físico. Ele recapitula os fundamentos da tradição ocidental — das letras hebraicas e os arcanos do Tarô aos quatro mundos da Cabala e aos sete princípios da Teosofia — mas propõe uma visão pessoal do caminho iniciático e da evolução da consciência.

Em 1900, sob inspiração interior, fundou La Fraternité de Sainte Philomène, que descrevia como uma sociedade invisível, sem estatutos ou juramentos, cujos membros seriam escolhidos pela própria santa.

Santa Philomena 
Fernand Rozier faleceu em 1922, aos 83 anos. Sobreviveu à maioria de seus companheiros e discípulos, e deixou um legado discreto, porém duradouro, no esoterismo francês. Seu obituário no Voile d’Isis lamentou que ele não tenha escrito uma obra maior em vida — mas seu curso, reencontrado e preservado na Bibliothèque Municipale de Lyon, representa uma peça fundamental da tradição mágica moderna.

O ocultista e historiador Serge Caillet tem trabalhado para resgatar essa herança esquecida, trazendo à luz a vida e o pensamento de um dos últimos iniciados da geração de Éliphas Lévi. 

Sobre o Ocultismo Cristão, ele escreveu: 

“Nós estudamos coisas escondidas e somos acusados ​​de esconder nossos estudos. Descrevemos a natureza das armadilhas ocultas para alertar o público sobre seus perigos e somos acusados ​​de armar armadilhas nós mesmos. Nós trazemos homens a Deus e mostramos as obras de Deus em coisas ocultas e somos acusados ​​de limitar os poderes de Deus ou mesmo de negá-los. Mas não há antagonismo entre religião e ocultismo; pelo contrário, um completa o outro. E como só encontro segurança no Cristianismo e só encontro a verdade completa nas palavras de Cristo, o ocultismo que ensino é o ocultismo cristão.” - Fernand Rozier


Leo Artaud Toledo 


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