Papus - Gérard Encausse - Biografia - Os Mestres do Passado





Papus: O Médico Iniciado e a Alma do Esoterismo da Belle Epoque

Na história do Ocidente, o nome de Papus — pseudônimo de Gérard Encausse — está velado entre os arquivos da medicina e da magia. Em uma época anterior à radiografia, esse “mago médico” diagnosticava enfermidades a partir da vibração dos órgãos e da contraparte etérica e astral do corpo humano.

Durante a Primeira Guerra Mundial, ele serviu como médico no campo de batalha. Como um verdadeiro guerreiro da luz, unia o bisturi ao símbolo do bastão de Hermes, elevando-se entre os espíritos que cumpriam missões em nome da pátria e da humanidade. No plano físico e no plano sutil, Papus servia à cura.

No campo da literatura esotérica, seu legado é impressionante: mais de 160 obras publicadas, muitas das quais lançaram as bases da teoria e prática de diversas ordens iniciáticas modernas. Entre elas, destaca-se a Ordem Martinista, da qual foi um dos principais fundadores e sistematizadores.

No seio das tradições ocultistas, Papus foi tanto a mãe que gera quanto o parteiro que faz nascer: alimentou e estruturou a Ordem Martinista e a Ordre Kabbalistique de la Rose-Croix. Em termos espirituais, era um canal dedicado às sintonias da cura e da sabedoria universal.

Terá sido Papus abençoado pela alma de Paracelso, o grande médico-alquimista renascentista? Ou talvez a reencarnação dos ideais de Franz Anton Mesmer, o pai do magnetismo espiritual?

No plano espiritual, Papus representou uma rara síntese viva das grandes correntes iniciáticas: rosacrucianismo, magnetismo, martinismo, maçonaria francesa, alquimia, cabala, teurgia renascentista e as doutrinas secretas de mestres como Éliphas Lévi e Saint-Yves d’Alveydre. Ele foi o centro unificador de diversas escolas esotéricas europeias e de ritos espiritualistas herdeiros do Iluminismo interior.

Se há algo inquestionável é que Papus encarnou a virtude e o gênio da cura — física, psíquica, astral e espiritual.


As Origens de Papus

Papus nasceu na Espanha, em 13 de julho de 1865, sob o signo de Câncer. Seu nome completo era Gérard Anaclet Vincent Encausse. Seu pai, Louis Encausse, era um inventor dedicado à medicina alternativa, criador do chamado “Gerador Encausse”, um dispositivo projetado para a absorção de medicamentos pela pele. Sua mãe, Irene Perez, era espanhola e, segundo algumas fontes, de origem cigana.

Na infância, Gérard foi educado no colégio Rollin, onde demonstrou desde cedo uma inclinação para a medicina. Aos 17 anos, ingressou na célebre Faculdade de Medicina de Paris. Mas algo dentro dele pressentia que a anatomia física não bastava: havia dimensões mais sutis do ser humano a serem compreendidas.


A Jornada Esotérica

Enquanto cursava medicina, Papus passava longas horas na Biblioteca Nacional de Paris e na Biblioteca do Arsenal, onde mergulhou nos vastos arquivos de literatura ocultista. Foi no Arsenal que ele teve contato com um grupo de discípulos de Éliphas Lévi, ligados à Rosa-Cruz de Toulouse, liderada por Firmin Boissin, um antigo bibliotecário e mestre iniciado.

Esse círculo esotérico reunia nomes ligados ao Rito Primitivo de Narbonne, aos Philadelphes, Philalèthes e ao misticismo do Rito de Saint-Martin. Entre seus membros e influências estavam também escritores do Romantismo esotérico e do Fantasismo.


Henri Delaage
Papus foi conduzido por uma clara Providência até este núcleo espiritual e intelectual de Paris, onde circulavam figuras como o Abade Lacuria, o Abade Roca, Saint-Yves d’Alveydre, Bolo de Mendes, Henri Delaage e outros mestres que, embora anônimos, foram fundamentais na sua formação iniciática. Muitos se comunicavam por meio de revistas espiritualistas e pelas editoras de René Caille.

Após a leitura do Dogma e Ritual de Alta Magia, de Éliphas Lévi, Papus tentou escrever ao mestre — mas Lévi já havia partido deste mundo. Ainda assim, foi encaminhado a um círculo de gnósticos, rosacruzes e martinistas “antigos”, todos profundamente influenciados pelo legado de Lévi.


Foi nesse círculo que ele conheceu Henri Delaage, iniciado por Alphonse Esquiros, discípulo e vizinho de Éliphas Lévi. Em 1882, Delaage consagrou Gérard Encausse com o nome de PAPUS, S:::I::: — um título espiritual que o ligava à tradição dos Superiores Desconhecidos, herdeiros do misticismo de Louis-Claude de Saint-Martin. 

Obs.: Mesmo se Delaage não tivesse dado as orientações necessárias, não faltavam discípulos vivos de Delaage, Lévi e Esquirós na França como Fernand Rozier, Lacuria, Fauvety.



A Iniciação

Papus comentou sobre sua consagração:

“Alguns meses antes de sua morte, Delaage quis confiar a outro a semente que lhe fora confiada... Um pobre depósito feito de duas letras e alguns pontos, um resumo da doutrina da Iniciação e da Trindade que iluminou todas as suas obras. Mas o invisível estava lá e é ele mesmo quem será responsável por confiar esta semente espiritual a uma terra onde ela possa se desenvolver.”

Com sua iniciação, Papus tornou-se o elo entre o antigo e o novo esoterismo. Provavelmente teve também contato com linhagens do Rito de Saint-Martin, uma tradição maçônica esquecida, cujas origens remontam ao “mártir da França”.


A Jornada Iniciática de Papus: de Alquimista Desconhecido à Alma da Tradição Oculta

Documento de Eireneus Philalethes
Alquimista discípulo de Michael Sendivogius
No ano de 1883, Gérard Encausse, já renascido com o nome iniciático de Papus, é acolhido também em uma sociedade alquímica – provavelmente os Philaletes de Paris. Essa sociedade mantinha, em seus mais altos graus, o título de “Filósofo Desconhecido”, em especial no 9º Grau, dedicado ao estudo da Teurgia, da Alquimia e da Teosofia cristã. Conforme detalhado na biografia de Louis-Claude de Saint-Martin, os Philaletes foram os guardiões discretos da tradição Martinista após a dissolução das ordens originais.

Já em 1884, Papus registra que dá início às recepções Martinistas: “As primeiras iniciações ocorreram em 1884 sob a égide de Poirel...”. Seu trabalho estava apenas começando.

Dr. Fernand Rozier 
Místico e Mago
No ano seguinte, Papus conhece Fernand Rozier, Alquimista, Mago e amigo de Éliphas Lévi, e passa a se corresponder com aquele a quem chamaria de seu mestre prático: Peter Davidson, então representante da Hermetic Brotherhood of Luxor (H.B. of L.), à qual se afilia oficialmente em 1885. Diferente de outras ordens mais filosóficas, a H.B. of L. focava no ocultismo prático, incluindo técnicas de magia cerimonial, uso de espelhos mágicos, invocações e evocações. Era um sistema exigente: o iniciado deveria registrar com exatidão seus contatos com os Mestres Invisíveis, sob rigorosa preparação ritualística.

Segundo seu biógrafo e filho, Dr. Philippe Encausse, em 1886 Papus decidiu combater o cientificismo materialista dominante, oferecendo uma doutrina que sintetizava o saber esotérico ocidental. Ele se inspirou nas obras de figuras como Louis Lucas, Wronski, Cyliani, Lacuria, Hector Durville, Fabre d’Olivet e, especialmente, Saint-Yves d’Alveydre. O fruto deste esforço seria o livro O Ocultismo Contemporâneo, no qual reverencia esses mestres como faróis do conhecimento oculto.

Papus e a Sociedade Teosófica

A efervescência espiritual parisiense da época reunia diversos discípulos de Éliphas Lévi, muitos dos quais estavam ligados à Sociedade Teosófica de Adyar. Entre eles estavam Charles Barlet, René Caillé, o Barão de Spedalieri e Camille Flammarion, frequentadores do influente “Círculo da Estrela”, sediado na casa da Condessa Maria de Sinclair, Duquesa de Pomar. Foi essa mesma condessa que, a convite de Helena Blavatsky, fundou a Sociedade Teosófica do Oriente e Ocidente em 1884.

Papus conhece a condessa em 1887 e passa a frequentar o ramo Ísis da Sociedade Teosófica. Nesse período, ele também se aproxima de F.-Ch. Barlet, que o inicia formalmente na Irmandade Hermética de Luxor, além de conhecer seu mentor intelectual definitivo: Saint-Yves d’Alveydre, o sistematizador da Sinarquia. É também nessa época que se inicia sua duradoura amizade com Stanislas de Guaita.

As reuniões esotéricas fervilhavam em Paris. Papus participava das sessões na casa de De Guaita, ao lado de personalidades como Victor-Émile Michelet, Maurice Barrès, Joséphin Péladan e o abade Lacuria. Na casa de Madame Sinclair, solicita aprovação da sede internacional para fundar o Ramo Hermes da Sociedade Teosófica, que recebe o aval do General Olcott em 1888.


Le Lotus Bleu, Revista de Divulgação da Loja Hermes
na qual Papus foi secretário 

Ainda assim, um conflito de princípios se tornava evidente. Em uma carta de Peter Davidson, enviada no final de 1887, ele alertava Papus sobre as divergências entre a visão teosófica dos Mahatmas e a tradição ocidental representada pela Cabala e pelo Martinismo. Assim, após três anos de colaboração, Papus se afasta da Sociedade Teosófica. Durante este período, ele atuou como secretário do Ramo Hermes e fundou a revista Le Lotus.

Fundação da Livraria do Maravilhoso e o Nascimento da Ordem Martinista

O Pantáculo Original é vermelho
Em meio a esse ambiente vibrante, Papus funda, em 1888, junto a seu amigo Lucien Chamuel, a “Livraria do Maravilhoso” (Librairie du Merveilleux), acompanhada da publicação mensal L’Initiation. Ainda nesse ano, publica o influente Tratado Elementar de Ciências Ocultas, obra que se tornaria referência para gerações de estudantes esotéricos.

Também em 1888, um encontro aparentemente casual mudaria os rumos do ocultismo europeu: Augustin Chaboseau, jovem interessado nos estudos herméticos, vai ao Hospital da Caridade e começa a frequentar as reuniões de Papus. Recomendado por Pierre Gaëtan Leymarie, discípulo de Allan Kardec, Chaboseau e Papus rapidamente descobrem que ambos possuíam uma herança iniciática ligada ao “Filósofo Desconhecido”, Louis-Claude de Saint-Martin. Em um gesto simbólico, se iniciam mutuamente, sem maiores formalidades – e assim renasce formalmente a Ordem Martinista.

Papus afirmava:

“Agora, se queres estudar Magia, começa por compreender que tudo o que te atinge à tua volta, todas estas coisas que agem sobre seus sentidos físicos, o mundo visível finalmente, tudo isso só é interessante como traduções em linguagem grosseira das leis e ideias que surgirão da sensação quando esta tiver sido filtrada pelos sentidos e digerida pelo cérebro.”

1889 – Fundação do G.I.D.E.E.

No ano seguinte, Papus funda o Grupo Independente de Estudos Esotéricos (G.I.D.E.E.), que mais tarde se tornaria a Escola Hermética. Seu objetivo era fornecer uma estrutura de estudo sistemático das ciências ocultas, sintetizando as tradições herméticas, rosacruzes, cabalísticas, alquímicas e martinistas, oferecendo um espaço de formação espiritual e intelectual para os buscadores da Luz.

1890: O Véu de Ísis, o afastamento da Teosofia e novos rumos

A partir de 1890, Papus intensifica sua produção escrita com obras como "A Ciência dos Magos, suas aplicações teóricas e práticas", e a revista "Le Voile d'Isis" começa a circular. Este período marca também um distanciamento progressivo da doutrina teosófica. Os escândalos envolvendo a Sociedade Teosófica e os conflitos ideológicos com o pensamento tradicional do Ocidente o levaram a buscar novos caminhos. O mesmo movimento acontece em relação ao espiritismo, cujas práticas já não condiziam com os objetivos ritualísticos e iniciáticos que Papus buscava aprofundar.

Supremo Conselho Martinista e a saída de Péladan

Com o crescimento da Ordem Martinista, é formado o Supremo Conselho. Porém, a diversidade de visões entre os membros leva à saída de Joséphin Péladan, que funda a Rosa-Cruz Católica e a Rosa-Cruz Estética, um projeto ambicioso que visava unir arte, espiritualidade e tradição cristã nos célebres "Salões da Rosa-Cruz". Papus, por sua vez, segue reunindo em torno de si círculos cada vez mais influentes do ocultismo europeu.

Conexões internacionais: Martinismo e Ordens aliadas

Em 1891, laços fraternais são estabelecidos entre a Ordem dos Superiores Incógnitos e diversas organizações, entre elas:

  • A União Idealista Universal

  • A Ordem Cabalística da Rosa-Cruz (OKRC)

  • O Grupo Independente de Estudos Esotéricos (GIDEE)

  • A Ordem dos Iluminados (Alemanha)

  • A Sociedade Alquímica da França

  • A Universidade Livre de Altos Estudos Herméticos

  • Grupos esotéricos no Egito, Pérsia e China

Essa expansão reforça a ideia de uma rede de fraternidades ocultas que visavam preservar e difundir a Tradição Esotérica do Ocidente, interligando conhecimentos da alquimia, teurgia, teosofia e cabala com as práticas rituais e iniciáticas.

1892 a 1894: A Igreja Gnóstica e o encontro com Philippe de Lyon

Em 1892, Papus publica "A Cabala – Tradição Secreta do Ocidente", uma das suas obras mais influentes. No ano seguinte, é consagrado bispo por Jules Doinel na recém-criada Igreja Gnóstica da França. A Igreja se tornaria, a contragosto de alguns, a forma litúrgica e sacramental ligada ao Martinismo.

Nizier Anthelme
Phillipe de Lyon
Mas é em 1894 que se dá um dos encontros mais marcantes de sua vida: Papus conhece Nizier Anthelme Philippe, o "Mestre Philippe de Lyon", um curador místico cujos dons extraordinários impressionaram profundamente Gérard Encausse. Philippe não se autodenominava messias, mas muitos o consideravam uma manifestação viva dos poderes preditos por Paracelso. Este encontro muda o rumo da vida espiritual e pessoal de Papus.

Com o incentivo de Philippe, Papus conclui sua formação médica, recebendo o título de Doutor em Medicina em 7 de julho de 1894. Passa a atuar como médico e chefe do laboratório do Hôpital de la Charité, em Paris. Nesta época, também se noiva com Mathilde Ignard Theuriet, após cinco anos de namoro com a feminista Anna Wolska.

1895: O Magnetismo e a Golden Dawn

Papus torna-se vice-presidente da Escola de Magnetismo de Lyon, fundada por Hector Durville, tendo Philippe como presidente. Os ensinamentos transmitidos ali envolviam astrologia, uso ritual das cores, ervas e orações. Paralelamente, Papus é iniciado como Neófito (0=0) na Hermetic Order of the Golden Dawn, no Templo Ahathoor n.º 7 de Paris, ainda que sua participação tenha sido breve.

Neste ano, publica "As Artes Divinatórias", um estudo que abrange fisiognomia, quiromancia, grafologia, astrologia e astrosofia — uma síntese de diversas formas tradicionais de conhecimento divinatório.

1896 a 1898: Alquimia, Rosa-Cruz e as ordens germânicas

Em 1896, na revista L'Initiation, Papus publica o artigo "A Encarnação de um Eleito", uma homenagem direta a seu mestre espiritual, Philippe de Lyon.

Em 1897, funda a Sociedade Alquímica da França, ao lado de Saint-Yves d'Alveydre, Stanislas de Guaita, Jollivet-Castelot, Paul Sédir e outros nomes de peso do esoterismo francês. A revista oficial da sociedade seria a L’Hyperchimie, que posteriormente se tornaria Rosa Mística.

Neste mesmo contexto, surgem indícios da fundação da enigmática Fraternitas Thesauri Lucis (F.T.L.), supostamente criada por Papus, Sédir e Marc Haven como uma via espiritual rosacruciana que resgatava elementos arcaicos da Tradição oculta. Uma descrição de seus princípios pode ser encontrada na obra de Sédir, "Os Rosacruzes".

Em 1898, é firmado um tratado de aliança entre a Ordem Martinista e a "Illuminaten Orden" de Theodor Reuss, figura central do ocultismo germânico da época. A carta inicial fora dada a Franz Hartmann, mas Reuss se tornaria o delegado oficial em 1901. Essa conexão aproxima Papus também da Ordem dos Rosa-Cruzes Esotéricos da Alemanha, ligada à tradição da O.T.O. original, cristã, e integrada ao Rito Swedenborgiano e ao sistema Memphis-Misraim. 

Obs.: É importante lembrar que esta O.T.O. não tem relação direta com a posterior filosofia thelêmica de Aleister Crowley. 

Até os dias de hoje, Papus continua atuando no invisível — incansavelmente — orientando os buscadores sinceros, inspirando líderes de diversas organizações iniciáticas e apontando, para quem tem olhos de ver, As Portas das Academias Místicas Alquímicas Tetramegistas e Herméticas.

Muitos me perguntam: “Em qual ordem devo entrar?”, “Como saber se estou pronto?” A verdade é que o caminho Martinista sempre esteve presente neste canal, em cada símbolo, em cada palavra. Irmãos do outro lado da existência velam por essa senda. Quando, com sinceridade, expressamos nosso desejo de servir e aprender, a porta se abre no tempo certo — não pela força, mas por merecimento.

A biografia de Papus nos mostra que, num tempo de intensa inquietação mundial, muitos criaram ordens, fundaram revistas, esperavam o fim dos tempos ou ansiavam por uma Nova Era. Alguns tentaram forjar Avatares. Poucos, contudo, alcançaram o êxito e a relevância duradoura que Papus conquistou — e ele jamais fez isso sozinho.

Ele via as organizações como um médico enxerga o corpo humano: algumas tinham cabeça, pés, mãos, coração, órgãos, sede física e estrutura astral; mas poucas possuíam uma Alma — um Espírito — e um Anjo guardião que sustentasse sua Trindade interior. Talvez por isso tantas dessas ordens não resistiram sequer à segunda grande guerra, e muitas se dissolveram silenciosamente.

É curioso — ou profundamente simbólico — que o Ocultismo tenha florescido de forma tão vibrante em períodos que antecederam grandes catástrofes. Isso nos sugere um propósito maior: como uma Arca de Noé, o esoterismo reuniu e preservou o conhecimento sagrado que poderia ter sido perdido. Em cada país, uma Arca foi construída. Após o dilúvio, colhemos seus frutos.

Papus, mestre da cura e da síntese, dividiu sua jornada sob a luz de três guias: Saint-Yves d'Alveydre, como o Mestre Intelectual e físico; Peter Davidson, como o Mestre prático e astral; e o Mestre Philippe de Lyon, como o guia Espiritual.


Deixo uma pergunta para sua meditação: quais são os seus três Mestres?

A continuidade da Ordem Martinista no mundo, mesmo após duas guerras mundiais, é fruto da Força de Vontade impressa por Papus e seus companheiros no plano físico, astral e espiritual. Essas sementes remontam ao pré-Revolução Francesa e ao período anterior à fundação da Grande Loja da Inglaterra. Enquanto os ingleses “regularizavam” o esoterismo, Papus ousava desregularizar e socializar o conhecimento sagrado.

Foi chamado de profanador, vulgarizador, charlatão. Mas quantas noites ele sacrificou com a família para dedicar-se ao bem da humanidade? Quantas sementes ele lançou em silêncio?

Papus sonhava com uma Universidade do Ocultismo. Hoje, algumas instituições reconhecidas oferecem cursos em ciências metafísicas e espiritualidade. Antes mesmo de Crowley falar sobre “Verdadeira Vontade”, Papus já havia popularizado as ideias de Fabre d’Ollivet, Saint-Martin e Jacob Böhme — autores que tratavam do tema com profundidade e reverência.

Mas acima de tudo, Papus foi humano. Errou, aprendeu, mudou de ideia. E é justamente isso que nos ensina: aqueles que falam com Mestres, Mahatmas, Seres de Luz — também são humanos. Naquela época, todos aprendiam caminhando, sem fórmulas prontas, mas com coragem para agir conforme suas convicções.


Sua trajetória pode ser dividida em três grandes fases:

Na primeira, ele absorve conhecimento e constrói suas bases: Wronski, d’Ollivet, Saint-Martin, Saint-Yves, Éliphas Lévi, Louis Lucas...

Na segunda, mergulha na prática: experimenta sistemas, invocações, alquimia, cabala, astrologia, conhece Adeptos e também enfrenta resistências e opositores.

Na terceira fase, realiza sua síntese: encontra o centro espiritual, depura sua missão e permite que sua Personalidade profunda — aquela que permanece atrás dos títulos e nomes — manifeste-se plenamente.

Sua missão era curar a França, mas deixou um remédio que hoje, mais de um século depois, continua disponível para aqueles que buscam se curar — e curar o mundo.

E quando você pisar num templo Martinista — ou meditar sobre essa Tradição — e sentir o coração disparar, as pernas vacilarem e o chão tremer suavemente sob seus pés, lembre-se: Papus esteve aqui. E, talvez, ainda esteja.


Leo Artaud Toledo 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Jean Chaboseau - O Martinismo Místico e a criação da Tradicional Ordem Martinista

O Projeto Os Mestres do Passado, Origem e objetivos

Robert Amadou - Biografia do Mestre do Saint-Martinismo